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Família denuncia suposta negligência em Hospital Municipal de Breves

A saúde pública na região do Marajó volta a ser alvo de graves questionamentos. Um caso dramático que se desenrola no Hospital Municipal de Breves, no Pará, acendeu o alerta para as condições de atendimento obstétrico e o acolhimento de pacientes na unidade. 

A família de Joice Telma dos Santos, de 34 anos, denuncia o que classifica como negligência médica após a paciente passar dias internada com um feto morto no útero, sem uma resolução definitiva para o seu quadro clínico.
A denúncia ganhou repercussão por meio de um relato contundente da mãe da paciente, Maria José Pantoja, que viajou do município vizinho de Afuá para acompanhar a filha diante da gravidade da situação.

O drama da espera e a denúncia de omissão

De acordo com as informações apuradas pela reportagem de Meli Nunes, transmitida pelo canal Marlon Nascimento TV, Joice Telma deu entrada no Hospital Municipal de Breves após a realização de um exame de ultrassonografia que confirmou o óbito fetal. O exame apontou que o bebê, cuja gestação estava no sétimo mês, já teria falecido há cerca de duas semanas.

Encaminhada imediatamente para a internação hospitalar por orientação do médico que realizou o exame de imagem, a paciente permaneceu cinco dias na unidade sem que o feto fosse retirado. Segundo a mãe de Joice, a equipe médica justificou a conduta alegando o cumprimento de protocolos padrão, que envolvem a indução medicamentosa para o parto normal.
"Seguiram o protocolo, injetaram um monte de remédio nela, ela não conseguiu ter dor, não conseguiu ter dilatação para ter o bebê e continua do mesmo jeito", desabafou Maria José.
Ainda segundo o relato familiar, ao questionar a equipe de plantão sobre os riscos de infecção e o sofrimento da paciente, a resposta obtida foi de que o cenário era "normal" 

Para a mãe, a falta de resolutividade configura uma falha grave no atendimento. "Eu acho que não é normal uma pessoa passar duas semanas com um bebê morto dentro da barriga. Eu, como mãe, estou pedindo ajuda para o povo, para o Ministério Público, porque a vida da minha filha está em risco", apelou.

Protocolos médicos versus o risco de infecção

O impasse central relatado no Hospital Municipal de Breves reside na escolha da via de parto. De acordo com os familiares, a equipe do hospital afirmou que a realização de uma cirurgia cesariana representaria um risco elevado para a saúde de Joice. No entanto, a permanência prolongada do feto retido no organismo materno também impõe severas complicações, como a Síndrome da Resposta Inflamatória Sistêmica (SIRS) e distúrbios de coagulação sanguínea.

Especialistas em obstetrícia apontam que, embora a indução do parto normal seja clinicamente preferível em casos de óbito fetal para evitar cicatrizes uterinas e riscos cirúrgicos desnecessários, o tempo de latência e a resposta da paciente à medicação devem ser monitorados de forma rigorosa. Quando o método farmacológico falha consecutivamente e há sinais de deterioração do estado emocional ou físico da gestante, a conduta deve ser reavaliada com agilidade para evitar o quadro de infecção generalizada (sepse).

A aparente falta de comunicação clara entre o corpo médico e os familiares amplifica o sofrimento psicológico em um momento que já é marcado pelo luto da perda gestacional, um bebê que era amplamente aguardado pela família.

Cobrança por respostas e o papel das autoridades

A situação relatada no município de Breves evidencia os gargalos estruturais e humanitários enfrentados no atendimento de saúde na Ilha do Marajó. O deslocamento de pacientes de cidades vizinhas, como ocorreu com a família vinda de Afuá, demonstra a centralização dos serviços em Breves, o que aumenta a pressão sobre o hospital local.

Diante do clamor público gerado pelo caso, a reportagem ressaltou a necessidade urgente de um posicionamento oficial por parte da direção do Hospital Municipal de Breves e da Secretaria Municipal de Saúde. Até o fechamento da matéria jornalística, o espaço permanecia aberto para esclarecimentos técnicos sobre os procedimentos adotados e o real estado de saúde de Joice Telma.

A intervenção de órgãos de controle, como o Ministério Público do Estado do Pará (MPPA), tem sido frequentemente solicitada por cidadãos marajoaras em casos semelhantes para garantir que o direito à saúde e à dignidade humana seja respeitado nas diretrizes do Sistema Único de Saúde (SUS).

A urgência da humanização no SUS

O caso de Joice Telma dos Santos reacende o debate sobre a urgência de um atendimento humanizado na obstetrícia, especialmente em situações de perda gestacional. O cumprimento estrito de protocolos clínicos não deve anular a sensibilidade e a agilidade necessárias para mitigar o sofrimento físico e psicológico de uma mãe.

A sociedade de Breves e do arquipélago do Marajó aguarda que as autoridades de saúde e os órgãos fiscalizadores investiguem os critérios adotados no atendimento da paciente, garantindo que a vida e a integridade de Joice sejam preservadas de forma prioritária.